Oiê, como você tá? Vivendo pelo recesso de fim de ano, como cada pessoa que tem esse privilégio? O ano vai chegando ao fim e, embora o tempo não pare, a sensação mista de esgotamento com a vontade de entregar um pouco mais é quase inevitável.
Inclusive, esse é um ótimo momento para falarmos da iniciativa da deputada federal Erika Hilton (PSol-SP), que está coletando assinaturas na Câmara para uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) acabando com a jornada de trabalho de 44h semanais, mais conhecida atualmente como escala 6X1. No modelo previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a pessoa trabalha 8 horas diárias de segunda a sexta-feira, mais 4h aos sábados, com apenas uma folga semanal.
Sabemos que a CLT não é a realidade geral, mas é a de quase 40 milhões de pessoas trabalhadoras no Brasil. Para elas, a rotina é começar a trabalhar logo cedo e só sair à noite, fora o tempo no trajeto. Sobra um dia e meio na semana para fazer absolutamente tudo que não seja trabalhar: tarefas domésticas, cuidados de saúde, atividade física, suporte familiar, resolver burocracias, ter lazer, estudar. Esse tanto de coisas tem que caber apertadas em parte do final de semana. Isso se os lugares em que você precisa ir estiverem funcionando.
Para entrar em discussão no Congresso, uma PEC precisa da assinatura de 171 parlamentares na Casa iniciadora. A de Erika Hilton tem apenas 95 até agora, mas se tiver os apoios necessários, ainda passa por um longo processo, que inclui o voto favorável de ⅗ dos parlamentares na Câmara e do Senado, dois turnos em cada.
Por outro lado, um abaixo-assinado online promovido pela deputada tinha mais de 1,4 milhão de assinaturas até o fechamento desta edição. O texto proposto por Hilton tem redação do movimento social Vida Além do Trabalho (VAT), liderado pelo vereador Rick Azevedo (PSol-RJ), e fala em redução da jornada de 44h para 36h semanais sem redução de salário, mas tende a ser alterado se entrar em tramitação.
A pauta deve esquentar essa semana, com a pressão do eleitorado aos parlamentares. A internet brasileira está tomada pelo debate: a escala 6X1 é extenuante, cruel e desumana. E é ainda pior para as mulheres.
O gênero é uma camada que não podemos desconsiderar nessa conversa. Sabemos que as mulheres fazem 85% do trabalho do cuidado no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto dedicamos em média 21h semanais à casa e à família, os homens usam apenas 11h para isso.
A semana tem 168h. Se tiramos 44h de trabalho remunerado, 56h de sono (8h por dia), 24h de transporte em geral (2h ao dia), e 21h de trabalho de cuidado, o que sobra? Na ponta do lápis, 23h na semana para se alimentar, estudar, ler, tomar banho, escovar os dentes, se exercitar, ir ao médico, ao banco, ou não fazer nada.
E ainda tem o complexo cenário da maternidade que não tá nessa conta. Para além do tempo, há mães e filhos penalizados por esse modelo de trabalho de várias formas. Não importa se quem está na escala 6X1 é a mulher ou homens que vivam com ela: a carga segue mais pesada para o mesmo lado.
Não tem como dizer que isso é saudável. Quanto mais justo. E nem falamos de quanto custa para o país ter tanta gente vivendo com pouca qualidade de vida, da baixa produtividade à sobrecarga do Sistema Único de Saúde (SUS).
Não temos a resposta para essa conversa, mas temos certeza de que ela precisa começar. Você concorda?
Um abraço,